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Vencedor do Prêmio Jabuti de 2010, Edney
Silvestre fala de seu segundo romance, ‘A Felicidade é Fácil’.
Um dos maiores desafios para um autor é lançar um novo livro depois de um primeiro retumbante sucesso. Cria-se enorme expectativa e essa
pressão pode inibir o escritor. Edney Silvestre enfrentou esse problema: Se eu fechar os olhos agora mereceu importantes prêmios literários e
despertou o interesse do mercado estrangeiro. Sem se abalar por essas questões circunstanciais, Silvestre trabalhava uma nova narrativa, essa que
temos em mãos.
"A felicidade é fácil" comprova que Silvestre veio ocupar um lugar de destaque no quadro literário brasileiro. Com engenho, ele subverte a
forma vencedora do primeiro romance, em que a macro-história (o conturbado período pré-ditadura militar) servia como pano de fundo a um relato de
violência e mandonismo. Neste novo livro, os destinos pessoais estão indissoluvelmente ligados à macro-história, o governo Collor.
O autor
une as duas pontas da história recente do Brasil: se em Se eu fechar os olhos agora havia ainda uma certa inocência, por meio do olhar das crianças,
em A felicidade é fácil ingressamos na era do cinismo, do despudor, do salve-se quem puder.
Tecnicamente, Silvestre nos dá uma lição: com alguns elementos típicos da narrativa policial, cria um romance político, gênero difícil e quase
inexplorado no Brasil.
Tudo transcorre, em capítulos intercalados, em menos de 24 horas, a partir da cena de um sequestro. Ficamos conhecendo
então Olavo e Ernesto, publicitários envolvidos com a alta corrupção do governo federal; Mara, uma ex-acompanhante de executivos; Irene e o marido,
além do filho, empregados domésticos; Major, motorista particular, e sua filha, Bárbara; e os membros de uma quadrilha internacional de
sequestradores.
Impressionante como Silvestre penetra nos universos distintos de cada um desses personagens.
O narrador trafega com desenvoltura pelos gostos
consumistas de Olavo e Mara, pelos meandros da sangria de dinheiro do Brasil para o exterior, pelo mundo de desejo e frustração do casal Irene-
Stephan e do Major e sua filha e, ainda, pelo linguajar e modos de delinquentes de alto coturno.
Ao fim e ao cabo, em meio à lama que parece avançar sobre tudo, Silvestre encontra esperança. Como no poema de Drummond, em que uma flor fura “o
asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Sublime.