
Um ônibus escolar está descendo uma rua sinuosa de um bairro carioca quando é interceptado por um carro em que estão três Bin Ladens. Um deles salta
do veículo, entra no ônibus segurando uma Uzi e pergunta, com uma voz rouca:
— Maicon Filipe?
Depois dessa cena, a vida de três pessoas nunca mais será a mesma. Um deles é Michael Philips, garoto de 13 anos que sabe tudo de jazz e basquete,
mas quase nada de sexo. Por trás de seu seqüestro está He-Man, traficante de 17 anos que sonha em se tornar o maior rapper do Brasil. Ele coleciona
namoradas no morro e uma delas se chama Jô, de 16 anos, que aprendeu a maior parte do que sabe conversando com uma irmã ex-prostituta e ouvindo os
funks de Tati Quebra-Barraco.
Em comum, os três protagonistas de Black Music, segundo romance do jornalista, escritor e cronista Arthur Dapieve, só têm mesmo a certeza do que
querem na vida. E uma rotina logo se estabelece entre eles. Enquanto o pai do americano não paga o resgate, He-Man fica encarregado de aterrorizar
Michael (ou, como ele diz, Maicon). Cabe a Jô limpar e alimentar o seqüestrado. Aos poucos, no entanto, começa a surgir um vínculo entre os três. Uma
ligação marcada por sensações conflitantes, até proibidas. Sonhos são revelados e, por alguns breves momentos, compartilhados. A raiva e o medo dos
que estão em campos opostos dão lugar a sentimentos menos sombrios, como amizade, compaixão e, quem sabe?, amor.
Para dar voz a Jô, meio "surda de tanto ficar perto das caixas de som nos baile funk", Dapieve cria, em um dos mais originais trechos de sua
narrativa, um monólogo devastador em letras garrafais:
"O HE-MAN ME COME DIREITO, NÃO ME BATE, ME DÁ UMA MESADA PRAS ROUPA E NÃO SE IMPORTA SE EU VOU SOZINHA NO BAILE FUNK. O NEGÓCIO DELE É RAP, SABE? E AQUI NO MORRO FUNK E RAP NÃO SE BICAM. É CADA UM PRA UM LADO. CLARO, NÃO SOU OTÁRIA, NÃO VOU CUSPIR NO PRATO EM QUE ELE ME COME. VOU SOZINHA PRO BAILE, MAS NÃO FICO DANDO MOLE PRA OUTRO HOMEM. NEM NENHUM OUTRO HOMEM QUE SAIBA DE QUEM EU SOU VAI DAR EM CIMA DE MIM. EU VOU NO BAILE COM AS MINHAS COLEGAS. A GENTE FICAMOS DANÇANDO ENTRE A GENTE, FAZENDO TRENZINHO E DESCENDO O POPOZÃO ATÉ O CHÃO, FAZENDO CARA DE SAFADA. NÃO É MUITO DIFÍCIL PRA GENTE FAZER CARA DE SAFADA, SABE? OS HOMENS FICA TUDO DOIDO. ELES GOSTAM DE FICAR EM VOLTA, VENDO A GENTE. ACHO QUE ELES SÃO CHEGADO NUMA SAPATÃO. SÓ QUE NÓS NÃO É SAPATÃO NÃO. SÓ TIRA UMA ONDA DE SAPATÃO, TIPO LÉBISCA CHIQUE."
"Jô pertence a uma parte da população jovem que se comunica num dialeto particular, no qual não existem concordâncias e nenhuma regra gramatical é seguida. Enquanto escrevia, fiquei tão obcecado em reproduzir fielmente esse vocabulário, que andava na rua pescando frases para incluir no texto”, conta o autor, que consegue construir uma narrativa dentro da favela sem, no entanto, resvalar na mais do que batida literatura da miséria. Em vez disso, nos oferece outra visão. Perturbadora, sim, mas também delicada e bem-humorada.
"Apesar
do cenário, do enredo e das imagens bastante violentas, este não é um mais um livro sobre violência, sobre a miséria nas favelas. Minha intenção aqui
foi justamente mostrar como a violência pode interromper, cortar futuros e sonhos. Ao mesmo tempo, para revelar o absurdo de tudo isso, inverti
papéis e criei uma fábula, na qual o rico é negro e o bandido é louro", explica Dapieve.